terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Conversas



Da outrora a Aurora dos amores

Nas nossas conversas, tuas palavras e pensamentos me levam para uma nostalgia sem fim. E que neste momento me faz indagar tudo que vivi até agora e ver de uma forma transicional e muito metamorfósica, todos os apegos e desassossegos. 


Ethienne Peixoto26/02/2013 H:03:10

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Insanidade em Cena: ROMA espelhado


Cena de café

Um par. Um ar. Dois corações.

Dois pares de sapatos, um salto alto outro um sapato social.
Camisa listrada azul e calça preta. No rosto se estampa uma barba falhada e um par de olhos verdes, relógio no pulso.
O vestido com alça e florido contém cores laranja e amarela, na boca um batom rosado e acima dos olhos uma sobrancelha fina, nas costas uma tatuagem.
Perto da porta ele se encontra apagando o cigarro entra e senta-se no bancão.
Ela está sentada ao lado da janela, olhando o movimento da rua e pensando no passado.

Uma criança começa a chorar, pois, quer quê a mãe compre um pão de leite.  Todos olham para birra ao mesmo tempo e enternecem.  A mãe agressivamente estapeia o menino e o puxa para fora do ambiente.
Todo aquele alvoroço e olhares de dó que tudo notavam, deixaram escapar o que surgia naquela manhã de quarta-feira no inverno de 1965, onde todos saiam correndo e atravessavam ruas atrasados para o trabalho. O que talvez nunca aconteceu ou aconteceu por milhares de vezes e nunca foi notado por três.

Lurdes a moça que tinha uma pequena estrela desenhada na pele ao ver aquela criança notou algo mais a sua volta. Um olhar lhe gritava quase corriam em sua direção era tão intenso que invadia a alma.
Tadeo, o rapaz de 26 anos estudante de história e empregado pelo estado, fitou os olhos naquela que ele tinha a certeza que era o amor de sua vida. Nunca se sentiu tão arrebatado por alguém, nunca se sentiu sufocado e ao mesmo tempo aliviado por sentir aquele cheiro tão doce de perfume de mulher, uma essência que estava apenas nove passos dele. Ao perceber que a moça notara virou-se para o balcão e pediu um café.

Lurdes inferiu a timidez do rapaz e se intimidou também. Voltou-se para janela. Indagou a si mesma, disse palavras feias, teve coragem e teve medo, teve ânsia e teve desejo de rir de falar de sentir de pensar “quem sabe trocamos telefone e depois nos encontramos no Cine Odeon”.
Tadeo, refletiu, imaginou o presente e também o futuro, e admirou, achou bela a timidez da moça de pele negra e cabelos trançados.

De tão linda que era ela, o romântico rapaz que sentia o coração disparar, ensaiou falas e até escreveu um bilhete que iria pedir a garçonete para entregar à senhorita de vestido florido, mas a falta de coragem não deixou.  Se xingou, se beliscou, de vez enquanto olhava disfarçadamente a donzela que também o olhava e que quando  percebiam-se  disfarçavam.

Até que Tadeo finalmente se encorajou, pensou “o não eu já tenho” levantou-se, puxou a calça, colocou a mochila nas costas, Lurdes notou, suas mãos gelaram e a de Tadeo também e então aquela coragem toda se transformou em medo de realmente ganhar o não que já tinha, ele virou-se em direção ao banheiro e entrou.

Molhou o rosto, urinou, lavou as mãos, conversou com ele mesmo através do espelho e saiu decidido a falar com a moça. Ao sair do banheiro não a encontrou, olhou para todos os lados, e a avistou do lado de fora, atravessando a rua sem olhar para trás e nem para os lados. Neste momento o rapaz de pele clara e olhos esverdeados a si próprio açoitou. Sentou e após um tempo olhando pela janela, sentiu alguém lhe tocando. O coração propeliu, virou-se e em sua frente à garçonete que usava um uniforme amarelado  o entregou um guardanapo onde Lurdes escreveu as seguintes palavras:

 “Oi meu nome é Lurdes, achei que fosse vir falar comigo. Eu sei que uma garota não deve mandar bilhetes para um rapaz, mas te achei muito encantador. Notei que estava meio nervoso e tímido, eu também estava. Mas gostaria de saber se tomaria um café comigo amanhã e talvez conversar um pouco. Estarei aqui ás 07h30min”.

Um par. Um ar. Um só coração.

Dois pares de sapatos, um com molecas macias e outro com sandalhas de tiras marrom.
Ele usa uma blusa branca e por cima um colete xadrez, a bermuda é beje. Na face não a pelos, os dentes já não são os mesmos e o relógio marcam 07h30min.
A Senhora ainda usa roupas floridas, só que agora não é vestido, mas um conjuntinho que ganhou da filha no natal do ano passado, nas costas aquela mesma tatuagem, porém ao redor desta se tem mais outras três, são as letras inicias dos nomes de seus filhos.

Entram então na cafeteria as mãos entrelaçadas e de pigmentos distintos, todavia, com a mesma similitude e com uma força e raconto linda.
Após quarenta e cinco anos eles novamente estão ali. O lugar é mais adornado o uniforme das garçonetes agora são grená e não se vende apenas café e pães.

Tadeo olha em volta, Lurdes acaricia seu rosto, ele beija as mãos da moça que tem as unhas rosa e a pele fragilizada pelo tempo. A garçonete serve o café, os dois soltam gargalhadas e relembram o dia em que se viram pela primeira vez. Tadeo retira do bolso o bilhete que sua senhora outrora lhe escreveu, lágrimas descem.

A garçonete entrega para Lurdes um guardanapo para que ela seque o rosto e ela ao reclina-lo na face nota que uma tinta azul quase lhe invade, sua mão então retorna, ela abre o papel onde Tadeo escreveu as seguintes palavras:

“Sabe o meu amor é teu e sei que o teu é meu. Não quero nunca que me deixe e nem me diga adeus e vou dizer milhares de vezes. Você saiu da minha vista, passou pela minha boca chegou aos meus ouvidos e se instalou em meu coração e hoje transborda minha alma. Tomarei café contigo até meu último suspiro de vida meu lindo amor. Até nosso último dia pintarei a lua e te darei estrelas. Adoro lembrar que tenho você todo dia. Eu te amo”.

Neste instante seus olhares penetram um no outro. Uma criança então começa a chorar, todos param para observar a menina que aos gritos pede à mãe que a compre um doce, e ali naquele mesmo instante uma moça que também olhava se sentiu invadida por outro olhar e no balcão um rapaz com uma xícara de café a observava lindamente, ambos se olharam e ao perceberem disfarçaram, e aqueles que ali estavam sentados, até mesmo Tadeo e Lurdes, deixaram escapar naquela manhã de quarta-feira no inverno de 2010, o que nunca aconteceu ou que por milhares de vezes aconteceu, mas nunca foi notado por três.

O amor é assim, ele não acontece para que três percebam, basta que olhares se encontrem ou gritem, e pessoas se permitam amar e serem amadas. Talvez as quartas ou quem saiba domingos, ele pode surgir qualquer hora do dia, qualquer dia da semana, qualquer estação do ano. O amor não tem dia, hora e nem lugar, entretanto pode acontecer milhares de vezes igualmente com pessoas diferentes, basta saber se elas irão se permitir e consentir, pois os dispostos se atraem.

Ethienne Peixoto D: 06/02/2013 H: 04h04min